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[ Sexta-feira, Julho 21, 2006 ]

 

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


Alberto Caeiro


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

ISABEL CARVALHO [11:07 AM]

Recados:

[ Sexta-feira, Julho 07, 2006 ]

 
Parada Gay: mais de 2 milhões na Paulista e quase nada de política


Como havíamos previsto no artigo Orgulho do que e para quê?, a Parada de Gays Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT) de São Paulo foi marcada por uma gigantesca contradição. Tendo como tema "Homofobia é crime", o evento, apontado pelo segundo ano consecutivo como o maior do mundo, reuniu "segundo dados da PM" cerca de 2,4 milhões de pessoas. Número "que mesmo tendo sido questionado por participantes, que falavam tanto em menos gente quanto em muito mais gente" está longe de poder ser desprezado.

Polêmicas numéricas a parte, o que realmente se destacou na Parada não foi nem o já conhecido mar multicolorido de pessoas que tomou a Avenida Paulista nem a empolgante alegria e bom humor de seus participantes. O destaque, infelizmente, ficou por conta de uma gigantesca ausência: a quase completa falta de referências às ações práticas e políticas necessárias para que, de fato, possamos transformar a homofobia e todo e qualquer tipo de discriminação em crime.

Apesar das milhares de bandeirinhas pintadas nas cores do arco-íris e distribuídas entre os participantes com a frase "Homofobia é crime", os pouquíssimos discursos quase não foram escutados, abafados pela música de quase 20 trios elétricos que inundaram a avenida.

E o tom foi de uma despolitização assustadora ou uma constrangedora hipocrisia, principalmente, por parte dos representantes das elites governantes, de todas as matizes e esferas.

"Brasil sem homofobia" só no papel ou em dias de festa

Representando o governo federal, Sérgio Mamberti abriu a parada afirmando que "por meio da luta podemos construir um Brasil mais justo". Um discurso que não pareceu convincente nem quando interpretado pelo ótimo ator que Mamberti já demonstrou ser.

Afinal, ele estava ali como representante de um governo que no que se refere aos direitos de GLBT "como em todo o resto" também prometeu "radicais e contundentes" mudanças e nada mais ofereceu além de documentos com títulos pomposos, mas completamente vazios tanto no que se refere às ações práticas quanto às dotações orçamentárias.

Numa demonstração de que a hipocrisia do governo e, particularmente, de Lula "cujas afirmações homofóbicas já fazem parte da História" não tem limites, o presidente ainda mandou enviou uma mensagem à Parada, se auto-vangloriando pelos "esforços que vem desenvolvendo desde o início do mandado" com vistas a promover a dignidade e a defesa dos direitos dos GLBT's em campos tão variados como a educação, a saúde, os meios de comunicação e demais esferas sociais.

O prefeito Gilberto Kassab (PFL) voltou a afirmar neste sábado que esse será o último ano dos grandes eventos na avenida, com exceção do Réveillon e da Corrida de São Silvestre. Mas, se depender do presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT, Nelson Matias Pereira, o assunto ainda deve gerar polêmica. "Sairemos em defesa da Paulista. Vamos mostrar para Prefeitura e Promotoria que é o melhor local pela logística e segurança", justificou.

"Parada ou balada?"
O clima de despolitização do evento repercutiu na imprensa em manchetes como a do Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho "Parada se assume como balada", mas foi diretamente estimulado pelos próprios organizadores da Parada, que já em sua abertura centraram suas falas na disputa para que a Parada continue acontecendo na Avenida Paulista "uma causa mais do que justa, principalmente diante da resolução da prefeitura contrária a que isto ocorra" e no clima "festivo" e no "beijaço" como grande formas de protestos.

Apesar de não termos nada contra a festa e os beijos públicos, como forma de dar visibilidade à livre orientação sexual de todo e qualquer um, é impossível concordar que um evento que reúna mais de 2 milhões de pessoas se resuma a isto, principalmente na capital de um estado que carrega o lamentável recorde, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia, de ter o maior número de assassinatos de homossexuais por ano, com a média de 21 mortos e marcados pela impunidade.

Como era de se esperar, o tom dado pelos organizadores foi o mesmo seguido pelos demais trios-elétricos, inclusive por aqueles levados pela UNE e pela CUT que, de forma nada surpreeendente, de forma alguma destoaram do clima de despolitização.

PSTU e Conlutas marcaram presença
Apesar de nossas públicas e notórias diferenças com a Parada, a Secretaria GLBT do PSTU de São Paulo "acompanhado por companheiros e companheiras da Conlutas" mais uma vez se fez presente com suas bandeiras decoradas com as cores do arco-íris e com o propósito de discutir com os participantes que a luta contra a discriminação de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros "assim como pelas mudanças sociais que possam levar ao fim da homofobia" não pode se resumir a Paradas simplesmente e muito menos a eventos que proposital e sistematicamente se recusam a apontar para à ação e à luta direta contra os opressores e a exploração capitalista.

Wilson H. Silva
da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras dos PSTU



ISABEL CARVALHO [9:55 AM]

Recados: